Viver sem fronteiras e amar o que se faz



Ao assistir a um espectáculo musical esquece-se facilmente as milhares de horas que cada músico acumulou para poder apresentar-se com características únicas.

Uma peça de barro ou de tecido acumula a experiência, anos de aprendizagem e investigação até ter a qualidade que chega até às suas mãos.

Um bailarino tem décadas de trabalho no corpo, um escritor milhares de horas de escrita.

Nestas e em muitas outras actividades artísticas existe a simbiose aparentemente perfeita entre profissão e paixão.

Uma das minhas investigações pessoais nestes desde que em 1998 comecei a estudar Medicina Tradicional Chinesa é responder à pergunta: O que torna a arte, a paixão e profissão possíveis? O que torna a arte uma actividade sustentável e que permita fazer desaparecer a fronteira entre trabalho e paixão?

Embora não exista uma fórmula clara para que isso aconteça, tenho encontrado neste percurso algumas aspectos que potenciam este acontecimento e que hoje partilho consigo neste artigo.

O que faz tem de ser útil à comunidade onde está inserido. Isso significa servir e partilha incondicional. Onde é que aquilo que o move e o apaixona pode integrar e inspirar a sua comunidade? Um escritor publica, um pintor ou escultor expõe, um professor ensina. Esta interacção alimenta o Mundo, alimenta o artista e alimenta a arte que está a ser desenvolvida. Sem esta relação de serviço é um hobbie. Um hobbie é uma actividade que gosta de fazer, que o preenche, mas que é um círculo fechado. Pode gostar de ler, viajar, caminhar, velejar, correr, fotografar e ser extremamente feliz enquanto o faz. Mas se o seu desejo é viver dessa actividade é necessário fazer a pergunta: Onde é que a minha paixão pode servir o mundo e fazer a diferença?

Solidão significa que o processo artístico é um processo solitário que em conjunto com os momentos de desconexão são importantes para activarem a sua criatividade. Existe o tempo para entregar à comunidade aquilo que produz. Um artigo que é publicado, uma aula, um quadro, uma escultura, um seminário, uma exposição, um relatório, um estudo. A intensidade e qualidade deste momento em que conecta com o mundo é proporcional à capacidade que tem de desenvolver resiliência e desconexão do mesmo e que vão dar origem a um trabalho e momento únicos.

Ir para além do conforto. A minha experiência pessoal é relativa às áreas da Medicina Chinesa, nomeadamente os Hábitos de saúde e longevidade e o Chi Kung. Depois de passada a rebentação dos primeiros anos; No meu caso cerca de 10, é fácil ficar pelo conforto do que foi adquirido. No entanto, isto aplica-se a outras áreas da vida. Limitar-se a um tipo de alimentação, procurar sempre as mesmas secções para ler no jornal diário, o mesmo tipo de literatura, os mesmos cafés, os mesmos locais de férias, os mesmos amigos. Lembre-se que a criação de algo revolucionário está relacionado com a capacidade de vencer a tendência de procurar sempre o conhecido e o confortável. Se querem mesmo que seja sincero, acho que a rebentação na minha prática está sempre lá – e ainda bem.

Coragem de fazer o difícil. Aqui não existem atalhos e não existem “panos quentes”. Existe um treino diário, existe um número de palavras a escrever, existe um tempo que tem de ser dedicado a pintar, a investigar, a preparar, a arrumar. Qualquer artesão em busca da mestria sabe disso. E isso é difícil. É mais fácil interromper constantemente o que está a fazer para consultar as “últimas” nas redes sociais que subscreve, verificar o email mais uma vez, ir fazer um café ou um chá, ligar a um amigo ou enviar um sms que de repente se tornou inadiável.

A capacidade de fazer este tipo de trabalho resume-se a chegar, a ficar e não sair até estar terminado. E isso quando é um compromisso diário é difícil. Com o tempo torna-se uma meditação, um processo de auto descoberta aos hábitos de fuga e razões de procrastinação que surgem quando os desafios têm de ser vencidos. A mestria é afinal lidar com as dificuldades até elas se tornarem fáceis.

Lidar e assumir o medo. O medo é um companheiro de viagem de quem avança para além do conhecido. É uma das facetas da Resistência. A Resistência é a que argumenta que é saudável pedir aquele sorvete de chocolate sem qualquer peso na consciência. Assim que acaba de engolir a última parte da baunilha, a Resistência faz-lhe a observação de que tudo o que acabou de comer vai ficar acumulado nas ancas. A Resistência assusta-o com o escuro e que deve acender a luz. Quando a acende diz-lhe ao ouvido: “que disparate não sabes que no escuro não existe nada de mal”. A Resistência cria uma série de cenários tétricos, recorda com um persistência visceral as possibilidades que o acto criativo tem de falhar, como isso pode ser assustador, ameaçador e até mesmo mortal. Existem lugares comuns:

  • Falar em público; “Olha que vai correr mal, vais ficar sem saber o que dizer.”
  • Inovar; “Acho que ninguém te vai compreender.”
  • Dedicar algum tempo a uma causa; “Vai te faltar tempo para outras coisas importantes da vida.”
  • Lançar um livro; “Tanto trabalho para quê? não acho que tenhas algumas coisa importante para dizer.”
  • Abraçar outras áreas da vida que são desconfortáveis; “Uau! Isso é mesmo importante, mas acho que deves começar só para o ano que vem.”

O Henry Fonda apesar de ter 75 anos continuava a vomitar todas as vezes que subia ao palco.

A resistência nunca vai desaparecer da sua vida enquanto decidir que quer inovar, criar, beneficiar os outros, explorar para além dos seus limites. Com o tempo quem lida diariamente com este factor aprende que quando a Resistência é muito forte num sentido é por ai o caminho.

(Mesmo agora, neste momento a minha Resistência acabou de me aconselhar a apagar este parágrafo sobre o medo; diz-me que o artigo está demasiado longo.)

Ser paciente. Tornar a arte um modo de vida leva tempo até que seja possível viver desse investimento. Até lá há que praticar, escrever, pintar, estudar. É um trabalho de escuta e paciência. Não porque seja difícil reservar tempo por dia para aquilo que quer, mas porque existem muitas distracções. O outro lado do rio vai ser sempre mais atraente até chegar ao outro lado. Uma vez ai chegado começam as saudades da outra margem. Muitas vezes esquece que acabou de sair de lá porque era aborrecido, cinzento e parecia que não levava a lado nenhum, mas agora, de repente, voltou a ser promissor. Não existe método de fazer uma planta crescer mais rápido, pode apenas aduba-la e dar-lhe amor diário. O resto está nas mãos do tempo e da capacidade que tem de lidar com as distracções e com a impaciência que o leva a experimentar constantemente outras margens.

Tornar a paixão numa profissão é possível, não significa que seja obrigatório uma mudança de actividade, religião, de país ou de família. Significa olhar para o que faz para além do comum ; todos os dias. Olhar para as rotinas e vícios que se instalaram e ter a coragem de ir para além das limitações que eles lhe impõem. Servir, partilhar, ao mesmo tempo que faz a gestão do delicado equilíbrio da solidão criativa com a entrega incondicional da sua arte à comunidade que o suporta.

Assim, a pergunta deixa de ser: como é que posso viver da minha paixão? para ser: como é que o meu trabalho pode servir, mudar e criar algo único?

E esta vai ser de certo uma resposta apaixonante.

Boas práticas.

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